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sábado, 16 de junho de 2012

Cenas da vida ... passe tatu ...

(14.06.12).
Hoje, ao sair do escritório para voltar para casa, utilizei-me do "passe tatu", aquele que permite o acesso ao metrô.
Ao chegar à plataforma, após descer as escadas, deparei-me com uma Senhora, já arqueada pelo peso do tempo, sobre uma cadeira de rodas, parecia motorizada: 1.0, 1.4, 2.0, 3.8, 4.8, V.6, V.8., flex ou não, quem sabe?! Era movida à bateria.
Olhando ao redor, verifiquei que os demais usuários, presentes na plataforma, dela mantinham uma distância que se pode chamar de "segurança", "indiferentes", algo como - isso não é comigo - totalmente diferente de outras observações quanto à aglomeração que se forma, quase "cheirando o cangote" - se isso não acontece - quando ausentes quem precisa de atenção.
Por ali fiquei, aguardando o "tatu".
Enquanto isso, mais e mais chegavam e, ao avistarem a arqueada Senhora, na sua cadeira de rodas, mais dela se afastavam; parecia doença contagiosa.
Dela me aproximei e perguntei:
- A Senhora está sozinha? (pergunta besta).
- Sim, estou, ninguém me ajudou (os presentes na estação e na plataforma - que continuavam afastados - e os "seguranças" do "tatu").
Disse, então: 
- Vou ajudá-la a entrar no "tatu" (ela riu e agradeceu).
O trajeto, até a estação que deveria desembarcar, se desenvolveu com um bate papo dos mais agradáveis,  risos e piadas, ironias e sarcasmos - que parece a mesma coisa - algo raro, considerando-se uma Senhora, avançada no tempo, pilotando o seu possante, com seus conhecidos e claros problemas, como se tudo fosse a alegria da vida, e o prazer de com alguém conversar.
Chorei na alma, ao olhar para o vagão e para os presentes, indiferentes; salvo um, que participou do colóquio, proporcionando feições de alegria a quem trazia feições de tristeza e abandono.
Próximo do destino, a Senhora me perguntou:
- Como vou sair, com tanta gente à minha frente? O Senhor me ajuda?
- Claro! - respondi.
- Basta engatar a primeira, e vamos em frente.
Ao chegar ao seu destino, ajudando-a a desembarcar, ela se volta e me diz:
- Que Deus o abençoe e o  faça feliz! Ninguém, faz tempo, me trata assim!
Olhei, pensei, e respondi (talvez não fossem as palavras):
- Minha felicidade é ver a Senhora passando para frente o 2.0!
Ela riu, me abençoou novamente, e seguiu a sua vida.
E os presentes, como dantes, indiferentes, continuaram.
E aí a lição da vida, pelo menos para mim: cada um retire aquela que lhe atingir a alma.
Para mim, foram momentos de pura alegria; chorei depois, e continuo chorando, quando trago na lembrança a indiferença, e me pergunto: ...???

Um comentário:

  1. Flavio...

    Teu texto retrata bem o Brasil em geral.
    Ante toda a roubalheira, todo o desmando, toda mentira dita e repetida, o Brasil se mostra indiferente.
    A indiferença sofrida pela mulher, é retratada no descaso dos mandatários para com o povo e do povo para com o destino do país.
    Nossa indiferença como cidadãos, está levando o brasil ao fundo do poço.

    abs.

    Sicário

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